Haviam se passado dois dias desde que Gabriella teve a confirmação de sua gravidez. Desde então, a advogada se dividia entre o trabalho e as noites solitárias em casa, sem saber o que fazer. Era fim de tarde no condomínio e depois de seu plantão, Lizzia resolveu aparecer na casa de Gaby, para conversar com ela sobre os rumos que sua vida tomaria dali em diante:
- Gaby? – Chamou Lizzia
- Aqui no quarto, Liz. – Respondeu Gaby
Quando a médica chegou no quarto, a cena que encontrou era deprimente: a advogada estava deitada na cama, aos prantos, enrolada em um cobertor de pele em pleno verão, assistindo ‘Uma Linda Mulher’, rodeada por chocolates e salgadinhos, além de embalagens vazias de cerveja e vodka espalhadas por todos os cantos.
- Gabriella! O que significa isso? Você ainda não parou de se embebedar? Você esqueceu que está grávida? – Gritou a doutora, visivelmente inconformada com a situação.
- Gostaria de esquecer, mas você não me deixa! – Resmungou Gabriella.
- Gaby, levanta dessa cama agora porque nós vamos ter uma conversa. – Ordernou Liz.
Gaby relutou por alguns minutos e então levantou da cama, enxugou as lágrimas e disse:
- O quê é? Lizzia, a moradora mais doce do THR, pela primeira vez assumiu uma postura autoritária e usando de seus conhecimentos como médica, selecionou exatamente cada palavra do que diria, na intenção de atingir Gabriella e fazê-la acordar para a nova vida que teria que enfrentar:
- Gaby. Você vai ser mãe, você tem noção disso? Se não tem, é melhor começar a pensar a respeito. Você se quer sabe quem é o pai dessa criança e daqui a nove meses, uma outra vida vai depender da sua.
Enquanto falava, Lizzia sentia o coração apertado por ver a amiga chorando com a dureza de suas palavras, mas sabia que alguém precisava alertar Gabriella, antes que ela colocasse sua vida e a de seu próprio filho em perigo. Então, a médica tomou coragem e continuou:
- Com que estrutura você acha que essa criança vai crescer se você não parar de achar que a vida é uma festa open bar? Você não é mais uma criança, você tem uma profissão séria e admirada, tem responsabilidades e no entanto parece que você ainda acha que tem 15 anos e que os anos não vão se passar pra você. Chegou a hora de crescer, Gaby.
Gabriella não sabia fazer outra coisa que não fosse chorar. As lágrimas que caiam sem cessar pareciam ser a prova de que finalmente, a advogada tinha caído na real e estava pronta pra enfrentar a verdade.
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Rebeca estava em sua casa, trabalhando em alguns projetos quando a segurança eletrônica avisou que alguém havia deixado outra encomenda. Ela foi até a porta, olhou para os lados e rapidamente pegou a caixa e a colocou dentro de casa, verificando se alguém estava a observando. Quando abriu a caixa, a geek encontrou pastas com vários documentos e um cheque. Em baixo, no meio de uma pastas, havia um bilhete que dizia: "Aqui estão os papéis assinados e o seu pagamento, obrigado pelos serviços prestados"
Assim que o leu, Rebeca esboçou um sorriso satisfeito e “pensou alto”: - Eu ainda não sei o porque disso tudo, mas eu vou descobrir, Ah se vou!
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Daniel e Gisele tinham combinado de se encontrar no salão de jogos do condomínio, onde não costumava aparecer ninguém. Gisele chegou algum tempo depois da hora marcada e Daniel já estava a esperando:
- Achei que não viria mais.– Disse Daniel, irritado com a demora.
- Desculpa, aquela babá imprestável não quer saber de ficar em casa cuidando das crianças. Agora ela só fica andando pelo condomínio de um lado pro outro feito uma barata tonta e quem acaba perdendo os compromissos sou eu. – Explicou Gisele.
- Tudo bem. O negócio é o seguinte: O Mikeias pode estar fazendo qualquer outra coisa na vida, menos te traindo. Você está paranóica.
- Como assim paranóica? Tenho certeza que tem alguma coisa errada com ele. – Questionou Gisele.
- E tem mesmo... A inocência. Em cinco minutos de conversa eu já consegui perceber que ele é a pessoa mais inocente do mundo e incapaz de te trair. Eu comecei a falar pra ele sobre a nova capa da Playboy, pra ver se ele me dava moral, se soltava alguma pista sem querer e sabe o que ele me disse? “Ah, não vejo essas coisas não mano, a Gisele me mata”. Meu Deus, que homem no mundo não vê Playboy porque a mulher não deixa? E pior: que homem no mundo confessa pra outro homem que não vê PlayBoy porque a mulher não deixa? Isso não existe, Gisele. O cara te ama, e não só por isso que ele me falou, mas porque tá na cara dele. Eu tenho experiência o suficiente na minha profissão pra te dizer que você pode ficar tranqüila, porque seu marido não te trai.
- Nossa, depois dessa... – Disse Gisele, parecendo um pouco desconfortável com a situação.
- Bom, é isso aí... Eu tenho que ir resolver uma coisa agora, mas você pode me ligar se precisar de qualquer coisa, tá bom? – Falou Daniel.
O delegado não deu tempo de Gisele dizer mais nenhuma palavra e já estava saindo da sala apressado, provavelmente indo encontrar alguém.
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Paulo estava em casa quando recebeu uma ligação. Era Monny, que insistia para que eles se encontrassem em algum lugar, ás escondidas, pois ela já não agüentava mais ficar longe dele. O arquiteto desconversava e fingia se importar com a estudante. Enquanto conversavam, Paulo viu da janela, Daniel correndo em direção a casa de Lizzia. Rapidamente desligou o telefone sem nem ao menos se despedir de Monny e começou a observar a situação. Viu Daniel batendo na porta e Lizzia o atendendo. O delegado não entrou e os dois começaram a conversar parados diante da frente da casa da médica. Mesmo um pouco distante, Paulo conseguia entender perfeitamente a conversa entre os dois, depois de tanto tempo com seu plano ele havia se aperfeiçoado em técnicas de expressão corporal e leitura labial. Daniel chegou dizendo:
- Lizzia, você precisa contar a verdade para a Flavia. Ela sabe que eu sei de alguma coisa e não dá mais pra mentir, me sinto mal. Hoje! Você precisa contar pra ela hoje!
- Eu sei que preciso, mas não é tão fácil assim... Ela não vai me perdoar, Daniel. E além do mais não é só isso, ainda tem você e eu não sei mais o que fazer, essa situação tá insustentável.
Só depois de olhar para Daniel e ver seu rosto estarrecido, Lizzia se deu conta do peso que suas palavras teriam.
- Eu? O que tem eu? – Perguntou Daniel.
- Você o quê? Eu não disse nada!
- Disse sim, você disse que não é só por causa da história do hospital que a Flavia não vai te perdoar, você disse que ainda tem ‘eu’. Como assim?
- Ai Daniel, você está louco, eu não disse nada.
- Lizzia... – Daniel a olhava com um olhar desconfiado, tentando pressioná-la a explicar o que quis dizer.
- Que foi?
- Lizzia... – Insistia o delegado.
- Para, Daniel!
- Não saio daqui e não te deixo entrar enquanto você não me disser o que eu tenho a ver com tudo isso.
Lizzia fechou os olhos, respirou fundo e mesmo se culpando incessantemente, sabia que não podia mais guardar pra si os sentimentos que pulsavam dentro dela.
- Tudo bem. O que acontece é que eu não consigo mais esconder que você meche comigo. E você não tem noção de como eu quero me matar nesse exato momento por estar te falando algo que eu não deveria falar, mas que ao mesmo tempo eu não posso mais guardar. É, você meche comigo e todo dia eu penso em como vai ser bom chegar aqui no condomínio e olhar pra essa sua cara de bobo que ri de tudo. Mas aí eu lembro que você é namorado da minha melhor amiga e que eu não deveria nem imag....
Lizzia não teve tempo de completar a frase porque a essa altura Daniel já havia a beijado. Da janela, Paulo assistiu a tudo e estava completamente devastado.
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Enquanto brincava com Miclote no jardim, Monny mandava mensagens no celular. Foi quando Gisele chegou e flagrou a cena. A senhora Scott já estava irritada com a babá por conta de suas noitadas, seus atrasos e seus passeios por aí e aproveitou o momento para despejar toda a sua raiva:
- Escuta aqui, garota. Ouve o que eu vou te dizer... Eu não estou te hospedando na minha casa pra você fazer essa palhaçada comigo não, entendeu? Se você continuar com essas atitudes eu vou te mandar de volta pra terra de onde você veio e não quero nem saber do que o seu papai vai achar. Você está cuidando dos meus filhos e não de um bichinho de pelúcia... Quero mais respeito e consideração, porque da próxima vez eu não vou avisar, eu vou fazer a sua mala e te mandar de volta pra casa. Entendeu?
- Entendi, senhora Scott. Me desculpe, prometo melhorar. – Disse Monny.
- Assim espero. Vem Mimi, a tia Monny vai ficar sozinha um pouco agora, ela precisa pensar. – Disse Gisele.
Mãe e filha entraram na casa e Monny resmungou:
- Maluca. Deixa só comigo! Tudo o que vai, volta!
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Assim que entrou em casa, Gisele deu de cara com o marido que veio a seu encontro para lhe dar um beijo. Os dois se encaminharam para a sala, enquanto aguardavam o café que a empregada trazia.
- Amor, sabe o que eu estava pra te perguntar faz um tempo? – disse Mikeias.
- O quê, Melocoton? – Respondeu Gisele.
- E a Verônica, aonde ela se meteu? Nunca mais ligou, nem apareceu...
- Não sei nenhuma notícia da minha irmã. Ela casou com aquele italiano, se mudou e esqueceu da família. Mando emails e ela nunca responde, deve estar tudo bem... Afinal, se estivesse tudo mal eu já estaria sabendo, não é? – Disse Gisele. -
Ah é mesmo... Oba, nosso café chegou. – Disse Mikeias.
O marido de Gisele começou a tagarelar enquanto ela estava perdida em pensamentos.
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Gaby estava em casa quando recebeu uma ligação do juiz, que queria dar a notícia de que havia dado autorização para retirar de vez os muros da RiverCourt e que ainda por cima, dali em diante, o lugar seria assegurado como patrimônio cultural e que ninguém mais poderia pensar em danificá-lo ou destruí-lo. A advogada comemorou a vitória e imediatamente ligou para Paulo contando a notícia, que ao saber se mostrou animado pelo telefone. Ao desligar deu uma risada e pensou alto: Mal sabem que quem queria algo com aquelas terras era eu mesmo, mas também agora tanto faz, já tenho meus problemas resolvidos, haha.
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Daniel que estava passando alguns dias na casa de Flavia vai até lá, mas não consegue agir normalmente com ela. A psicóloga o abraça, o beija, mas não nota nenhuma empolgação por parte dele. Sem medo de ouvir a resposta, Flavia logo pergunta qual é o problema e Daniel responde dizendo que só está cansado e que o trabalho o estava deixando esgotado. Flavia então, brinca:
- Vou ter que fazer uma massagem em você? Nossa, que sacrifício.
- Flá, eu vou ter que ir pra minha casa. – Diz o delegado, repentinamente.
- O quê? Por quê? – Diz Flavia, assustada.
- Eu tenho muito trabalho pra fazer e não consigo me concentrar aqui... E além do mais agora você está melhor e recuperada e pode ficar sozinha. Você se importa? – Pergunta Daniel.
- Ah, não queria que você fosse, mas se você prefere assim...
Daniel dá um beijo na testa de Flavia e começa a arrumar suas coisas para ir pra casa.
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Assim que chega em casa, Daniel liga para Lizzia e pede para que ela vá até lá para que eles possam conversar. A doutora reluta, mas acaba indo, movida pela curiosidade de saber o que Daniel está pensando depois do beijo que deram. Quando vê Daniel a esperando na porta, a doutora já diz:
- Olha, o que aconteceu foi errado e eu não quero mais que aconteça e é bom que você saiba que minha melhor amiga é uma das pessoas que eu mais amo na vida e não vou magoar ela, por isso eu vou contar tudo o que aconteceu e também vou...
- Lizzia, me escuta! – Daniel interrompe a doutora.
– Você sabe e eu sei que nós estamos envolvidos e não temos como fugir disso... A gente pode simplesmente ignorar esse beijo e passar o resto dos dias pensando “e se”, ou a gente pode assumir o que acontecer e deixar o tempo dizer o que vai ser...
- Mas e a Flavia?
- Eu sou louco por ela, mas acho que na verdade eu também sou louco por você e precisei saber que você tem sentimentos por mim pra me dar conta disso.
- E o que a gente faz, então? – perguntou a doutora.
- Vamos pensar nisso juntos, ok? E então, os dois se abraçaram por longos minutos e de alguma forma, ali estava sendo consolidada uma relação que poderia causar grandes estragos.
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Rebeca não havia esquecido do bilhete que leu na casa de Paulo e por isso, tomou coragem e foi até a casa do arquiteto para tirar a limpo a história toda. Ela conta a ele como descobriu sobre ele e Monny e Paulo decide não contar a ela porque ele está se envolvendo com a babá:
- Se você não contar, eu digo pra todo mundo sobre o que eu sei e ninguém vai te deixar em paz enquanto você não contar tudo. Mas se você me contar, prometo ser uma boa menina e guardar seu segredinho enquanto me for conveniente.
Paulo refletiu por alguns segundos e, sem alternativa, percebeu que era melhor confiar o segredo a Rebeca do que se ver encrencado com os outros moradores. Então, ele começa a contar sua história e Rebeca ouve atentamente. Quando termina de contar, Rebeca tenta aconselhá-lo e agradece a confiança. Assim que sai da casa do arquiteto, ela liga para uma pessoa misteriosa e diz:
- Já descobri tudo. Temos um problema a menos... Estamos no controle novamente e dessa vez ninguém vai nos atrapalhar.
CONTINUA
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